31/05/2010 por saudefloripa33pj
Como a Dinamarca consegue dar um extraordinário grau de satisfação a seus cidadãos
Em 2006, estudiosos da Universidade de Leicester, no Reino Unido, divulgaram os resultados de uma pesquisa pioneira. Eles usaram uma série de fatores para criar um mapa – de imediato respeitado e posteriormente emulado de várias formas – da felicidade no mundo. De dados relativos à saúde e educação pública ao grau de satisfação das pessoas com os rumos de seu país, a alegria planetária foi prospectada e investigada como nunca antes.
No topo da lista, não estava um ensolarado e luxuriante paraíso tropical nem alguma terra marcada por prazeres consagrados como uma culinária irresistível. O país campeão mundial de felicidade era, sob muitos aspectos, uma improbabilidade: temperaturas abaixo de 20 graus negativos em invernos intermináveis e taxas altíssimas de Imposto de Renda. A Dinamarca deixou o mundo inteiro para trás. Não só na lista da Universidade de Leicester, como em sucessivas outras feitas de lá para cá.
Qual é a mágica?
Se você vai à Dinamarca, o mistério se desfaz em pouco tempo, apenas com o que seus olhos alcançam. As pessoas sorridentes, saudáveis e bonitas que circulam de bicicleta pelas ruas bem tratadas e seguras de Copenhague são uma cena que impressiona e eleva a alma de forasteiros. A alegria está no ar. Você não se sente dominado pelo medo ao caminhar à noite por Copenhague, como acontece em tantas cidades brasileiras. Tampouco vê pessoas aflitas, como em metrópoles como Nova York, andando apressadamente com celulares colados aos ouvidos e laptops prontos a ser ligados em qualquer parada num café. Copenhague, a capital e a alma da Dinamarca, é diferente. Para melhor. Para usar uma expressão memorável de Hemingway sobre a Paris dos anos 20, a Copenhague contemporânea é uma festa móvel.
O que os olhos do visitante não captam os livros explicam com clareza. Os 5,5 milhões de dinamarqueses são como que guiados pelo Janteloven, ou Leis de Jante. Jante é uma cidadezinha imaginária criada pelo romancista Aksel Sandemose em 1933 no livro Um fugitivo cobre seus passos. Os traços básicos dos habitantes de Jante refletem o dinamarquês médio. Uma frase das Leis de Jante resume o espírito da coisa: “Você não é melhor que ninguém”. Logo, ninguém também é melhor que você. A Janteloven estimula a modéstia e a simplicidade – e acaba sendo uma armadura contra golpes na autoestima. As Leis de Jante têm o efeito de fazer os habitantes da Dinamarca sentir que ninguém é superior a eles.
Elas têm sido, de tempos em tempos, objeto de revisão e, não raro, questionamento. Alguns anos atrás, a treinadora de um time olímpico feminino dinamarquês causou celeuma ao se deixar fotografar com um agasalho esportivo em que estava escrito: “Dane-se a Janteloven”. Ela queria dizer que, em seu time, as jogadoras deveriam querer ser melhores que as outras. O desempenho da equipe não foi brilhante, e a estrela da treinadora foi deixando paulatinamente de brilhar. A Janteloven sobreviveu, e muito bem, às agressões estampadas no agasalho. Ela é uma instituição dinamarquesa, um motivo de orgulho e reverência – e controvérsias em torno dela fazem parte do espírito inquisitivo do país.
Compare o modelo mental esculpido pela Janteloven com a divisão estabelecida na sociedade americana entre vencedores e perdedores. Há uma crise econômica e você perde o emprego nos Estados Unidos: consequentemente, está transferido para o time dos derrotados. Não é pouca a pressão. Em nenhum dos muitos estudos feitos sobre o tema da felicidade os Estados Unidos aparecem entre os primeiros colocados. Tampouco o Brasil, é verdade. A ideia de que o brasileiro é um povo feliz pertence à categoria de mitos e lendas. Uma pesquisa recente feita por um instituto internacional chamado Pew, na qual foram ouvidas 200 mil pessoas de 57 países, mostrou que apenas um terço dos brasileiros está satisfeito com os rumos do país. Os traços básicos da Dinamarca são parecidos com os de outros países da região, como Suécia, Noruega e Islândia. Todos eles, previsivelmente, costumam brilhar em levantamentos globais de felicidade. “O conceito de felicidade ou satisfação com a vida é uma das áreas mais importantes de pesquisa em economia s e psicologia”, diz Adrian White, o coordenador do estudo da Universidade de Leicester. “Há um interesse crescente no uso de métricas de felicidade como um indicador nacional, em conjunção com medidas de riqueza.” Uma pesquisa feita na Inglaterra revelou que 81% da população acha que o governo deve se centrar em tornar as pessoas mais felizes, não mais ricas.
Como seus vizinhos nórdicos, e eis aí mais um fator positivo para aumentar a satisfação, a Dinamarca é um lugar libertário por excelência. A liberdade de expressão é um valor tão sagrado como a bandeira nacional. Não surpreende que tenha sido lá o lugar em que alguém ousou desafiar o fundamentalismo islâmico com a publicação e a republicação alguns anos depois de caricaturas de Maomé. Numa delas, o Profeta aparecia com uma bomba. Em outra, com o corpo de um cachorro. As charges deram origem a protestos enfurecidos, parecidos com os que se seguiram à publicação em 1989 de um romance de Salmon Rushdie que lhe valeu uma condenação à morte – não consumada – pelo aiatolá Khomeini, então no poder no Irã.
Produtos dinamarqueses foram boicotados por países muçulmanos, bombas explodiram, marchas e ameaças de toda natureza foram feitas. Calcula-se que 150 pessoas tenham morrido nos tumultos nascidos das charges. Os editores dinamarqueses, ao publicá-las e republicá-las, queriam deixar claro que não se vergavam diante de intimidações e não recuariam de outro valor nacional: a ironia. Esse é um traço que encontrou seu símbolo maior no filósofo existencialista Soren Kierkegaard, da primeira metade do século XIX. Conhecido como o Sócrates de Copenhague, Kierkegaard é lido, comentado e cultuado pelos dinamarqueses. Estátuas dele fazem parte destacada da paisagem de Copenhague. Ele escreveu sob diferentes pseudônimos, e muitas vezes o que afirmava num deles era desmentido em outro. “O mundo já tem gente demais que facilitou a vida das pessoas, com coisas como o telégrafo e a locomotiva”, disse Kierkegaard com um dos pseudônimos. “Meu papel é dificultar.”
O apreço à liberdade de expressão pode levar a paroxismos. É permitida na Dinamarca a veiculação de desenhos de pornografia infantil, por exemplo. Neste momento, os políticos locais estão discutindo isso. Um deles disse que, se não for comprovado que os desenhos estimulam os pedófilos a praticar crimes, será difícil mudar a legislação. Foi sob a mesma lógica permissiva que os alemães publicaram, na década de 1920, Mein Kampf (Minha Luta), um livro em que Hitler antecipava tudo o que faria, alguns anos mais tarde, no poder: basicamente, dedicar-se a um projeto bélico de dominação global da Alemanha e exterminar os judeus. Alguns países de tradição igualmente libertária promoveram recentemente ajustes na liberdade de expressão. No Reino Unido, “glorificar o terror” – elogiar a Al Qaeda de Osama Bin Laden e grupos terroristas similares – dá, agora, cadeia.
Os efeitos desanimadores dos impostos altíssimos da Dinamarca (entre 50% e 70% da renda) são mitigados pelo que o Estado oferece, em contrapartida, aos cidadãos. O dinamarquês tem, a despeito da mordida enorme em seu patrimônio, uma relação tranquila e decente com a taxação. É bem diferente do que ocorre em países como a cambaleante Grécia, onde as pessoas costumam se gabar em reuniões sociais de como driblaram o fisco. Uma das razões da presente tragédia financeira grega é exatamente a alta evasão de impostos. Para ter uma ideia, a economia informal grega chega a quase 30% do PIB. Isso se reflete numa sonegação de cerca de 10% do PIB. É uma informalidade parecida com a do Brasil. Uma das explicações que os economistas dão para esse fenômeno é que em democracias relativamente jovens, como é o caso da Grécia e do Brasil, o espírito público da sociedade é menor. Os cidadãos não enxergam um benefício claro no dinheiro que o Estado quer tomar deles.
Na Dinamarca, a economia paralela é uma das menores do mundo: gira em torno de 10%. Os impostos financiam o sistema educacional gratuito, a começar por dez anos de escolaridade obrigatória. Também o ensino superior é gratuito. Nos seus anos escolares, os jovens dinamarqueses recebem uma ajuda do Estado. Ao se iniciar na vida profissional, eles são beneficiados por um sistema de formação contínua. O Estado gasta 9% do PIB em educação, o dobro do que acontece no Brasil. As escolas preparam com capricho seus alunos para o mundo globalizado. Tão difícil quanto avistar sinais explícitos de pobreza na Dinamarca é topar com alguém que não seja fluente em inglês – seja um lixeiro, porteiro de restaurante, motorista de táxi ou o que for.
Os dinamarqueses desfrutam também um sistema de saúde invejável. Os hospitais são gratuitos e o acesso a médicos especialistas é franqueado. Se você tem uma doença crônica, como diabetes ou pressão alta, pode comprar por preços reduzidos remédios subsidiados pelo governo. A Dinamarca investe 20% do PIB em saúde pública. Um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz mostrou que no Brasil esse número gira em torno de 4%. Os dinamarqueses recebem uma pensão a partir dos 65 anos.
Mas têm oportunidade de seguir trabalhando depois em horários adequados, em nome da saúde mental. Num museu nos arredores de Copenhague, por exemplo, você encontra guardas de mais de 70 anos que têm uma jornada de trabalho de dez dias por mês. Um deles, com quem converso, é um oficial reformado da Marinha. “Numa escala de zero a dez, qual é o seu grau de felicidade?”, pergunto. “Oito”, ele responde num inglês fluente, depois de uma breve reflexão. Sem pretensões científicas, fiz a mesma pergunta a variados habitantes de Copenhague de diferentes profissões e origens. Em nenhum caso a resposta foi menor que oito. Todas as pessoas que abordei foram afáveis e delicadas. Tente fazer o mesmo em cidades como Paris ou Londres e você provavelmente receberá alguns pontapés em sua autoestima.
A Dinamarca é um raro exemplo de país em que o chamado Welfare State, o Estado de Proteção Social, foi preservado nas últimas décadas. Os ventos sopraram fortemente na direção econômica contrária, sob a pregação do Estado mínimo defendido com imenso sucesso nos anos 80 por líderes mundiais como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Na Inglaterra, a rede de proteção social armada depois da Segunda Guerra Mundial foi, em boa parte, desativada. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy foi eleito há dois anos com uma plataforma inspirada em Thatcher. A Dinamarca decidiu não reinventar seu sistema, nascido como uma espécie de terceira via entre o capitalismo e o socialismo. Pelo que mostram os estudos, e por aquilo que qualquer visitante verifica, os dinamarqueses ficaram felizes com a decisão.
Do blog Justiça e Saúde Floripa






