De ferramentas tecnológicas, qualquer um pode dispor, mas a cereja do bolo chama-se conteúdo. É o que todos buscam freneticamente: vossa majestade, o conteúdo.
Mas onde ele se esconde?
Dentro das pessoas. De algumas delas.
Fico me perguntando como é que vai ser daqui a um tempo, caso não se mantenha o já parco vínculo familiar com a literatura, caso não se dê mais valor a uma educação cultural, caso todos sigam se comunicando com abreviaturas e sem conseguir concluir um raciocínio. De geração para geração, diminui-se o acesso ao conhecimento histórico, artístico e filosófico. A overdose de informação faz parecer que sabemos tudo, o que é uma ilusão, sabemos muito pouco, e nossos filhos saberão menos ainda. Quem irá optar por ser professor não tendo local decente para trabalhar, nem salário condizente com o ofício, nem respeito suficiente por parte dos alunos? Os minimamente qualificados irão ganhar a vida de outra forma que não numa sala de aula. E sem uma orientação pedagógica de nível e sem informação de categoria, que realmente embase a formação de um ser humano, só o que restará é a vulgaridade e a superficialidade, que já reinam, aliás.
Sei que é uma visão catastrofista e que sempre haverá uma elite intelectual, mas o que deveríamos buscar é justamente a ampliação dessa elite para uma maioria intelectual. A palavra assusta, mas entenda-se como intelectual a atividade pensante, apenas isso, sem rebuscamento.
O fato é que nos tornamos uma sociedade muito irresponsável, que está falhando na transmissão de elegância. Pensar é elegante, ter conhecimento é elegante, ler é elegante, e essa elegância deveria estar ao alcance de qualquer pessoa. Outro dia conversava com um taxista que tinha uma ideia muito clara dos problemas do país, e que falava sobre isso num português correto e sem se valer de palavrões ou comentários grosseiros, e sim com argumentos e com tranquilidade, sem querer convencer a mim nem a ninguém sobre o que pensava, apenas estava dando sua opinião de forma cordial. Um sujeito educado, que dirigia de forma igualmente educada. Morri e reencarnei na Suíça, pensei.
Isso me fez lembrar de um livro excelente chamado A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, que conta a história de uma zeladora de um prédio sofisticado de Paris. Ela, com sua aparência tosca e exercendo um trabalho depreciado, era mais inteligente e culta do que a maioria esnobe que morava no edifício a que servia. Mas, como temia perder o emprego caso demonstrasse sua erudição, oferecia aos patrões a ignorância que esperavam dela, inclusive falando errado de propósito, para que todos os inquilinos ficassem tranquilos - cada um no seu papel.
A personagem não só tinha uma mente elegante, como possuía também a elegância de não humilhar seus "superiores", que nada mais eram do que medíocres com dinheiro.
A economia do Brasil vai bem, dizem. Mas pouco valerá se formos uma nação de medíocres com dinheiro.
MARTHA MEDEIROS
terça-feira, 1 de junho de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Condição de entrega
Acaba de ser revelado o que uma mulher quer e que Freud nunca descobriu. Ela quer uma relação amorosa equilibrada onde haja romance, surpresa, renovação, confiança, proteção e, sobretudo, condições de entrega. É com essa frase objetiva e certeira que Ney Amaral abre seu livro Cartas a uma Mulher Carente, um texto suave que corria o risco de soar meio paternalista, como sugeria o título, mas não. É apenas suave.
Romance, surpresa etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que amor ideal exista, mas "condição de entrega" me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.
Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?
Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência.
Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.
A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa.
A condição de entrega se dá quando se sabe que não haverá julgamento sumário. Diga o que disser, o outro não usará suas palavras contra você. Ele pode não concordar com suas ideias, mas jamais desconfiará da sua integridade, não debochará da sua conduta e não rirá do que não for engraçado.
É quando você não precisa fingir que não pensa o que, no fundo, pensa. Nem fingir que não sente o que, na verdade, sente.
Havendo condição de entrega, então, a relação durará para sempre? Sei lá. Pode acabar. Talvez vá. Mas acabará porque o desejo minguou, o amor virou amizade, os dois se distanciaram, algo por aí. Enquanto juntos, houve entrega. Nenhum dos dois sonegou uma parte de si.
Quando não há condição de entrega, pode-se arrastar, prolongar, tentar um amor pra sempre. Mas era você mesmo que estava nessa relação?
Condição de entrega é dar um triplo mortal intuindo que há uma rede lá embaixo, mesmo que todos saibamos que não existe rede pro amor. Mas a sensação da existência dela basta.
MARTHA MEDEIROS
Romance, surpresa etc, não chegam a ser novidade em termos de pré-requisitos para um amor ideal, supondo que amor ideal exista, mas "condição de entrega" me fez erguer o músculo que fica bem em cima da sobrancelha, aquele que faz com que a gente ganhe um ar intrigado, como se tivesse escutado pela primeira vez algo que merece mais atenção.
Mesmo havendo amor e desejo, muitas relações não se sustentam, e fica a pergunta atazanando dentro: por quê? O casal se gosta tanto, o que os impede de manter uma relação estável, divertida e sem tanta neura?
Condição de entrega: se não existir, a relação tampouco existirá pra valer. Será apenas um simulacro, uma tentativa, uma insistência.
Essa condição de entrega vai além da confiança. Você pode ter certeza de que ele é uma pessoa honesta, de que falou a verdade sobre aquele sábado em que não atendeu ao telefone, de que ele realmente chegará na hora que combinou. Mas isso não é tudo. Pra ser mais incômoda: isso não é nada.
A condição de entrega se dá quando não há competitividade, quando o casal não disputa a razão, quando as conversas não têm como fim celebrar a vitória de um sobre o outro. A condição de entrega se dá quando ambos jogam no mesmo time, apenas com estilos diferentes. Um pode ser mais rápido, outro mais lento, um mais aberto, outro mais fechado: posições opostas, mas vestem a mesma camisa.
A condição de entrega se dá quando se sabe que não haverá julgamento sumário. Diga o que disser, o outro não usará suas palavras contra você. Ele pode não concordar com suas ideias, mas jamais desconfiará da sua integridade, não debochará da sua conduta e não rirá do que não for engraçado.
É quando você não precisa fingir que não pensa o que, no fundo, pensa. Nem fingir que não sente o que, na verdade, sente.
Havendo condição de entrega, então, a relação durará para sempre? Sei lá. Pode acabar. Talvez vá. Mas acabará porque o desejo minguou, o amor virou amizade, os dois se distanciaram, algo por aí. Enquanto juntos, houve entrega. Nenhum dos dois sonegou uma parte de si.
Quando não há condição de entrega, pode-se arrastar, prolongar, tentar um amor pra sempre. Mas era você mesmo que estava nessa relação?
Condição de entrega é dar um triplo mortal intuindo que há uma rede lá embaixo, mesmo que todos saibamos que não existe rede pro amor. Mas a sensação da existência dela basta.
MARTHA MEDEIROS
Da Minha Precoce Nostalgia
Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de Porto, dizer a minha neta:
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar. E assim, dizer apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração! Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte. Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente. Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão. E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação. Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de você. Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim. Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália. Cuide bem dos seus dentes. Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.
Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito..." Tenha uma vida rica de vida. Vai que o carteiro ganha na loteria - tudo é possível, e o futuro, tsc, é imprevisível. Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela. Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status. A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com você, mas isso pode ser um saco! Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
Por favor, dance, dance, dance até o fim, se não por você, o faça por mim. Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão. Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais raras de amor. Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza. Era só isso minha querida.
Maria Sanz Martins
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar. E assim, dizer apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração! Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte. Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente. Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão. E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação. Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de você. Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim. Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália. Cuide bem dos seus dentes. Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.
Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito..." Tenha uma vida rica de vida. Vai que o carteiro ganha na loteria - tudo é possível, e o futuro, tsc, é imprevisível. Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela. Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status. A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com você, mas isso pode ser um saco! Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
Por favor, dance, dance, dance até o fim, se não por você, o faça por mim. Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão. Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais raras de amor. Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza. Era só isso minha querida.
Maria Sanz Martins
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Ela está almoçando sozinha? Tadinha!
Resolvi almoçar na padoca que vira restaurante no horário do almoço. Como sempre, eu não comi tudo. Quando a moça veio tirar o prato, comentou que eu tinha comido pouco (como vocês sabem, somos um povo muito interativo). “É que veio muita comida”, eu disse. “É, você está sozinha, tadinha”, disse a moça.
Tadinha? Como assim. Eu não estava chorando, estava fazendo frio (o que é bom) e fora a minha enorme tristeza com a tragédia do Rio, aquele era um dia normal. Será que eu estava com cara de coitada? Puxa, mas eu usava meu casaco de neve de Berlin, e estava me achando chique. Tadinha.
Tadinha de mim porque estava almoçando sozinha, em uma sexta feira comum, depois de deixar umas roupas na tinturaria. Isso é uma vida de tadinha? Acho que não. Aí lembrei do óbvio. É porque eu sou mulher (dã). E, como se sabe, no Brasil, mulher não pode almoçar sozinha. Muito menos jantar. Ir para a balada então, nem pensar. Temos que andar em dupla. Ou em bando. Sozinhas, nunca! Só se for para ir na manicure ou no supermercado.
A Jô uma vez foi almoçar sozinha em uma cantina. “Você está esperando alguém?” “Não”, ela respondeu. O garçom ficou com tanta pena que a Jô foi tratada com honras. Virou um tipo de atração de circo. A incrível mulher que almoça sozinha em uma cantina.
Somos coitadas porque trabalhamos com liberdade e não temos que almoçar com o grupinho da firma. Somos coitadas porque não carregamos um homem ou uma amiga do lado quando vamos fazer uma coisa prosaica como almoçar correndo num dia de semana.
Somos tadinhas. Ou atrações de circo. Nós, que só queremos ser moças normais.
(Nina Lemos)
Tadinha? Como assim. Eu não estava chorando, estava fazendo frio (o que é bom) e fora a minha enorme tristeza com a tragédia do Rio, aquele era um dia normal. Será que eu estava com cara de coitada? Puxa, mas eu usava meu casaco de neve de Berlin, e estava me achando chique. Tadinha.
Tadinha de mim porque estava almoçando sozinha, em uma sexta feira comum, depois de deixar umas roupas na tinturaria. Isso é uma vida de tadinha? Acho que não. Aí lembrei do óbvio. É porque eu sou mulher (dã). E, como se sabe, no Brasil, mulher não pode almoçar sozinha. Muito menos jantar. Ir para a balada então, nem pensar. Temos que andar em dupla. Ou em bando. Sozinhas, nunca! Só se for para ir na manicure ou no supermercado.
A Jô uma vez foi almoçar sozinha em uma cantina. “Você está esperando alguém?” “Não”, ela respondeu. O garçom ficou com tanta pena que a Jô foi tratada com honras. Virou um tipo de atração de circo. A incrível mulher que almoça sozinha em uma cantina.
Somos coitadas porque trabalhamos com liberdade e não temos que almoçar com o grupinho da firma. Somos coitadas porque não carregamos um homem ou uma amiga do lado quando vamos fazer uma coisa prosaica como almoçar correndo num dia de semana.
Somos tadinhas. Ou atrações de circo. Nós, que só queremos ser moças normais.
(Nina Lemos)
segunda-feira, 29 de março de 2010
Não espere
Não espere um sorriso para ser gentil
Não espere ser amado para amar
Não espere ficar sozinho para reconhecer o valor de quem está ao seu lado
Não espere ficar de luto para reconhecer o que hoje é importante na sua vida
E especialmente quem hoje é importante em sua vida.
Não espere pessoas perfeitas para se apaixonar
Não espere a mágoa para pedir o perdão
Não espere a separação para buscar a reconciliação
Não espere a dor para acreditar em oração ou adquirir a fé
Não espere elogios para acreditar em si mesmo
Não espere o ''eu te amo'' para dizer ''eu também''
Não espere ter dinheiro aos monter para poder então poder ajudar alguém
Pare de esperar
A vida é feita do presente
É vivida hoje
Se aprende com o passado
Se sonha com o futuro
Mas se vive no presente
Portanto,
Não espere o dia da sua morte
Sem antes amar a vida verdadeiramente
E dizer tudo que sente
Somente você é capaz de mudar si mesmo.
Não espere ser amado para amar
Não espere ficar sozinho para reconhecer o valor de quem está ao seu lado
Não espere ficar de luto para reconhecer o que hoje é importante na sua vida
E especialmente quem hoje é importante em sua vida.
Não espere pessoas perfeitas para se apaixonar
Não espere a mágoa para pedir o perdão
Não espere a separação para buscar a reconciliação
Não espere a dor para acreditar em oração ou adquirir a fé
Não espere elogios para acreditar em si mesmo
Não espere o ''eu te amo'' para dizer ''eu também''
Não espere ter dinheiro aos monter para poder então poder ajudar alguém
Pare de esperar
A vida é feita do presente
É vivida hoje
Se aprende com o passado
Se sonha com o futuro
Mas se vive no presente
Portanto,
Não espere o dia da sua morte
Sem antes amar a vida verdadeiramente
E dizer tudo que sente
Somente você é capaz de mudar si mesmo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Sou negra e me amo
“Sou mulher, negra, pobre e canto rap. Poderia ser vítima de todo tipo de preconceito não fosse por um detalhe: eu me respeito, por isso as pessoas me respeitam. Minha mãe sempre se orgulhou da nossa cor, nunca teve vergonha da nossa condição social – e, claro, acabou ensinando a mim e a meus quatro irmãos a ter autoconfiança. Cresci me achando bonita, gostando do meu corpo, do meu cabelo sem chapinha. Além disso, ela, que é professora, sábia, nos deu a melhor educação possível. E informação é uma arma contra a ignorância da discriminação, certo? Acreditei desde cedo que podia fazer o que desse na telha. Queria cursar teatro; minha mãe me inscreveu numa escola. É maravilhoso atuar, mas nada se compara à energia de subir no palco. Dos hinos na igreja evangélica, religião da minha família, caí no rap participando dos shows e CDs do RZO [Rapaziada da Zona Oeste]. Um amigo me convidou, quando eu tinha 16 anos, e aceitei de cara porque amo cantar. Era um tipo de música dominado por homens. Então, me posicionava: não distribuía sorrisos a qualquer um e me vestia como eles, calça larga, tênis… para me preservar naquele início de carreira.
De lá pra cá, soltei a voz na música Não É Sério, do Charlie Brown Jr., também gravei o CD Guerreiro, Guerreira, com o rapper Helião; estive na festa dos 40 anos da Globo; no programa do Faustão… Nem por isso me deslumbrei com o sucesso. Mesmo se fosse uma desconhecida, seria uma estrela no meu mundo. Porque aprendi a ser feliz com o que sou. O triste é que auto-realização é confundida com prepotência. Já ouvi: ‘A Negra Li está metida, é outra pessoa’. Preconceito! Só porque agora me visto melhor e falo corretamente não quer dizer que não tenha humildade. É preciso evoluir! Lembro que, em 2000, quando entrei para o Coral da Universidade de São Paulo, carregava nas gírias. Convivendo com o grupo, comecei a me expressar melhor. E quero aprender mais.
Preconceito contra alguma coisa ou alguém, eu? Não perco meu tempo. Saiu numa entrevista que odeio axé. Por causa disso, os que gostam até criaram comunidade no Orkut contra mim. Calma, gente! Primeiro, músico não detesta música. Disse apenas que era o que eu menos ouvia. Segundo, o problema é mais embaixo. Não curto letras que influenciam as crianças de um jeito negativo. Acho triste ver uma garotinha cantando algo apelativo ou violento, de qualquer ritmo. Tanto que meu rap passa mensagem otimista, de paz. Chega a ser romântico, porque acredito no amor. Mas cada artista deve batalhar por seus sonhos; o meu é gravar CD solo. Não dá para dizer que fulano é melhor ou pior por ser diferente. Como o ser humano pode julgar tanto? Todo preconceito é burro e faz mais mal a quem tem do que a quem sofre. Se você é vítima disso por causa da sua cor, do seu peso, do seu jeito de pensar, fique firme. Ame-se, sonhe alto e não se intimide diante de nada nem ninguém. Seja uma estrela no seu mundo.”
Negra Li
De lá pra cá, soltei a voz na música Não É Sério, do Charlie Brown Jr., também gravei o CD Guerreiro, Guerreira, com o rapper Helião; estive na festa dos 40 anos da Globo; no programa do Faustão… Nem por isso me deslumbrei com o sucesso. Mesmo se fosse uma desconhecida, seria uma estrela no meu mundo. Porque aprendi a ser feliz com o que sou. O triste é que auto-realização é confundida com prepotência. Já ouvi: ‘A Negra Li está metida, é outra pessoa’. Preconceito! Só porque agora me visto melhor e falo corretamente não quer dizer que não tenha humildade. É preciso evoluir! Lembro que, em 2000, quando entrei para o Coral da Universidade de São Paulo, carregava nas gírias. Convivendo com o grupo, comecei a me expressar melhor. E quero aprender mais.
Preconceito contra alguma coisa ou alguém, eu? Não perco meu tempo. Saiu numa entrevista que odeio axé. Por causa disso, os que gostam até criaram comunidade no Orkut contra mim. Calma, gente! Primeiro, músico não detesta música. Disse apenas que era o que eu menos ouvia. Segundo, o problema é mais embaixo. Não curto letras que influenciam as crianças de um jeito negativo. Acho triste ver uma garotinha cantando algo apelativo ou violento, de qualquer ritmo. Tanto que meu rap passa mensagem otimista, de paz. Chega a ser romântico, porque acredito no amor. Mas cada artista deve batalhar por seus sonhos; o meu é gravar CD solo. Não dá para dizer que fulano é melhor ou pior por ser diferente. Como o ser humano pode julgar tanto? Todo preconceito é burro e faz mais mal a quem tem do que a quem sofre. Se você é vítima disso por causa da sua cor, do seu peso, do seu jeito de pensar, fique firme. Ame-se, sonhe alto e não se intimide diante de nada nem ninguém. Seja uma estrela no seu mundo.”
Negra Li
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Não sei amar pela metade!
Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma sempre!
Gosto das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR
(Clarice Lispector)
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma sempre!
Gosto das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR
(Clarice Lispector)
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