sábado, 28 de fevereiro de 2009

O bom e velho heterossexual

Antes de mais nada, é preciso levar um ponto em consideração: essa profusão de rótulos constrangedores como “metrossexual”, “neossexual”, “pornossexual”, “toscossexual” e quetais obedece primordialmente a uma ânsia de classificação da mídia de moda e comportamento, e é de se duvidar que a maioria das pessoas espertas e dotadas de suas plenas faculdades mentais leve isso minimamente a sério. Ainda assim, os rótulos continuam aparecendo, um mais tosco do que o outro, diferenciando-se em filigranas que são mais difíceis de diferenciar para quem não está absolutamente interessado do que o que torna distinto o “lounge” do “ambient” – ou o thrash metal do speed metal, para que não digam que estou pegando no pé dos moderninhos.

O mundo de hoje é rápido e publicitário. Internautas sem-noção respondem com obscenidades no YouTube quando os vídeos dos quais não gostaram os fazem perder “30 preciosos segundos de vida” – que se tivessem sido economizados provavelmente seriam usados para continuar procurando pornografia na internet. Num mundo em que tudo virou comercial, o espaço publicitário para se vender um produto valorizado é cada vez mais restrito: uma conversa de cinco minutos no primeiro encontro, uma entrevista de 10 perguntas na seleção de emprego, uma primeira impressão de três segundos formada por aparência e vestuário.

O que nos leva ao “sexual” que sempre termina qualquer um desses rótulos ridículos. O sexo é o produto de maior demanda e oferta no mundo contemporâneo. Tá certo que sempre ocupou o centro das preocupações, mas agora sua disponibilidade o torna um bem de consumo tão essencial quanto a luz elétrica – e que, como a luz elétrica, um bem que torna a vida bem mais difícil quando NÃO se tem.

Logo, sexo é um produto dos mais populares. Junte a isso a cultura recente pós-revolução feminina segundo o “Homem Ideal” deve ajustar-se aos desejos femininos (não deixa de ser estranho que uma reivindicação tornada possível devido à liberação feminina do século 20 ainda procure um homem idealizado de contos europeus do século 17). Mas as mulheres, e isso elas próprias admitem, sabem muito melhor o que não querem do que o que querem. Daí essa tentativa de sistematização de uma fórmula: o homem do século 21 é o neossexual, o metrossexual, o ônibussexual. Algum dia ainda vamos ouvir que as mulheres interessadas em homens estão é a fim mesmo do bom e velho heterossexual.
CARLOS ANDRÉ MOREIRA

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